terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ensaio sobre a solidão humana. ( Parte 1)

     A solidão intrínseca na liberdade é o que rege o ser.
O indivíduo, por si só, é um projeto de solidão comunitária. Estamos todos sós, querendo ou não, dentro de nossa própria mente.
    A individualização que a atualidade nos trouxe, com tempos cada vez mais curtos, tarefas cada vez mais acumuladas e o egocentrismo já naturalmente humano, nos faz refletir se, o indivíduo é realmente capaz de involuir este estado.
    Uma semana no sertão foi necessária para a minha percepção quanto a solidão que alastra e definha por meio da depressão, pessoas e mais pessoas.
     A questão é o abandono, o descaso do maior para o menor. A dependência direta de um outro superior para a sobrevivência. A escassez é de água, de olhar e de vida.  Cansou-se de sofrer, e apenas, espera-se a morte, só, e sentado em uma cadeira na porta de casa. E clama-se, que venha sorrateira, sem causar tantos danos a quem, por anos lutou contra as leis naturais e agora, luta contra a solidão.
      Na abundância, há o mesmo. Tem-se tudo. Carros, festas, dinheiro e comida, mas principalmente, tem-se a solidão. Não há mais olho no olho, ou o indivíduo que se importe diretamente com o que se passa com o próximo que está ao chão, humilhando-se pelo que se é dito fundamental.
      Os ricos de material, são, infelizmente, os que mais se deixam crescer dentro do universo da solidão. Os anti depressivos de preços e consumo absurdos, são, o que pode-se chamar de refúgio contemporâneo.
      E já dizia o velho Tom, " Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho.." , qual amor é fundamental ? O de Deus para com o homem ? A fé ? a compaixão ? o amor de quem passa todos os dias por inúmeras pessoas e não observa se há um ser humano dentro das carcaças? Que tipo de amor é fundamental ? O eros ? o fraterno ? o amor próprio ?
      É muito fácil tornar-se invisível. É talvez, mais fácil tornar-se invisível que visível. Que tipo de ego nos leva a não ver o próximo ? 
      A nossa própria solidão aparenta-se tão angustiante dentro do que somos que é quase míope ver a solidão do próximo. Como acreditar na velha estória das borboletas que encontram o jardim mais bem cuidado ? Como iludir-se com tal beleza e ver, na vida real, tanta gente que não tem cinza em seu jardim, mas que, mesmo assim, continua na luta diária da solidão.
    Um dia, quiçá, alguns jardins desistirão de entender o que falta  e tornar-se-ão mais um, dentre todos. Mas, mesmo olhando de uma perspectiva de que esta visão é completamente pessimista, abro a janela e continuo vendo a luz do sol completar cada pedaço de meu jardim. E vejo, que este amor fundamental, é a união de todos os amores, tendo-o ou não tendo-o, ou até mesmo, alimentando a esperança de um dia ter o que falta.
      É exatamente pelo medo da solidão, que fecham-se os jardins para que ele fique individualmente mais bonito que o da casa ao lado, o que, acaba, por si só, tornando um jardim belo, mas, com um muro separando-o de seu semelhante.   
     O problema da solidão não é a falta de um próximo, é a falta da liberdade para deixar-se olhar o outro primeiramente, e assim, esperar ser olhado.

"A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo." Fernando Pessoa

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